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A voz de Martha Percarrere está trêmula enquanto ela conta com alegria em como se transformou na primeira grávida da Argentina a ser submetida com êxito a um transplante de fígado. Uma hepatite fulminante no quinto mês de gestação a poucos dias de 2009, a colocou na lista nacional de transplantes da Argentina (procedimento necessário para conseguir um órgão de doador com morte cerebral). "Acho que fiz 32 anos duas vezes. No dia 16 de dezembro, data que está no meu documento, e no dia 17 de dezembro, que foi o dia que fui transplantada", conta.
E há duas semanas chegou mais um presente: a filha Sofía de los Milagros que nasceu depois de uma cesariana e sem complicações, mesmo pesando apenas oitocentos e cinqüenta gramas. O transplante realizado no Hospital Universitário Austral é o décimo-quinto feito em todo o mundo em uma mulher no segundo trimestre de gestação. Dos catorze casos registrados até hoje, em apenas quatro sobreviveram a mãe e o bebê. "A cesária estava programada para o acontecer a partir do dia 19 de janeiro, mas a pressão alta e a diminuição da quantidade de líquido aminiótico fizeram com que os médicos antecipassem o dia", lembra Martha, em casa, horas antes de visitar a filha no hospital. Pedi que me anestesiassem somente da cintura para baixo antes do parto, para que pudesse vê-la sair, chorar e espernear. Os médicos me diziam: "Sua filha tem uma força." Imediatamente as puseram lado a lado na cama. "Senti uma grande emoção por vê-la bem. Ela me dá forças para viver. Todos os dias falo com ela, canto para ela que faz caretas e tenta abrir os olhos", conta Martha, esperando pelo dia que o pequeno Franco, de três anos, conhecerá sua nova irmã.
Os primeiros sinais da doença hepática, lembra Martha, começaram no terceiro mês de gravidez, no início de novembro do ano passado, enquanto a família viajava de automóvel até a cidade Valderrama. "Na primeira semana lá, vomitava e me sentia mais fraca que o costume, até que amanheci com os olhos amarelados. Quando me levaram à maternidade da cidade de Tucumán já estava com o corpo todo amarelado", explica. Os exames confirmaram uma hepatite fulminante, mas ela decidiu voltar com sua família a Buenos Aires para se consultar com sua obstetra. "Mesmo com os exames todos péssimos, uma médica me mandou voltar para casa e me prescreveu uma consulta com um especialista, que só tinha horário para dali um mês", lembra. Nesse mesmo dia decidiu, juntamente com seu marido, ir ao pronto socorro da cidade de Munro. "Como os médicos não sabiam se era hepatite ou uma pedra no fígado, me prescreveram um exame com laser, contra-indicado para grávidas. Quando entrei na sala de cirurgia, me dei conta que não havia contado ao médico que estava grávida.", O exame não foi feito e a família pediu a transferência ao centro médico Agüero, em Morón, onde um especialista concluiu que era necessário um transplante completo de fígado, que finalmente foi feito no Hospital Universitário Austral.
"Estamos muito contentes porque pudemos acompanhar a decisão da paciente e de sua família e de dar o tratamento que mãe e filha necessitavam, disse o médico Eduardo Schinitzler, do Hospital Universitário Austral. Ele e outros médicos da equipe multidisciplinar que atende Martha e sua filha Sofía participaram nesta quinta-feira, 29 de janeiro, de uma entrevista coletiva para apresentar os resultados do transplante. "Entre as mulheres grávidas, a gestação pode ser a causa da deficiência hepática, por isso há que se descobrir rapidamente a causa da doença e, se for a gravidez, a indicação é interrompê-la, explica o médico Marcelo Silva, chefe do serviço de gastroenterologia do hospital. O importante nesses casos é não interpretar levianamente as causas e estudar melhor, e foi o que nos permitiu optar pelas duas vidas e não ir pelo caminho mais fácil".
Lutando contra o relógio, os médicos fizeram em Martha todos os exames pré cirúrgicos necessários e tiveram 48 horas para decidir como fazer o transplante sem afetar o bebê. "Não me lembro o que aconteceu até dois dias depois do transplante, quando acordei e comecei a reconhecer toda a minha família", lembra. Me contaram que os médicos saíram da sala de cirurgia e lhes disseram: ‘As duas têm uma força sensacional’".Por isso, o marido de Martha decidiu na unidade neonatal que a menina não se chamaria apenas Sofía, como tinham planejado desde o segundo mês de gravidez.
Durante toda a entrevista, que durou uma hora, Martha não deixou de agradecer a equipe de médicos, enfermeiros e técnicos do Hospital Universitário Austral, assim como a central de transplantes Argentina,a Incucai, que em 24 horas colocou à disposição o fígado para a cirurgia. Antes de terminar a conversa, a feliz mamãe pediu para mandar uma mensagem para os familiares do doador. "Teria que inventar uma palavra que pudesse expressar tudo o que minha família e eu sentimos por eles que permitiram que eu e minha filha estivéssemos vivas. Espero um dia poder conhecê-los, e que possam ver em minha filha como foi útil seu gesto de solidariedade".
O transplante, segundo a equipe médica
Durante as seis horas que durou o transplante, o cirurgião esteve a frente de um caso único em seus vinte anos de experiência. "Foi a primeira vez que coube a mim transplantar uma paciente grávida", contou o médico Gustavo Podestá, da unidade de transplante hepático do Hospital Universitário Austral. "Se tivéssemos que interromper a gravidez, o problema não se resolveria", acrescenta. Vários cuidados permitiram que o bebê não sofresse e que não aparecessem inconvenientes que geralmente podem surgir em pacientes que não estão grávidas", disse. "Foi muito bonito escutar os batimentos do coração da bebê logo depois que revascularizamos o fígado transplantado. Nesse momento, tive tudo o que necessitava para continuar operando", diz o médico. Há poucos dias a paciente começou a rejeitar o órgão transplantado, mas os médicos controlaram esse processo com remédios."Optamos pela cesária na vigésima-sétima semana porque a mãe teve pré-eclâmpsia e a bebê tinha sinais de que estava sofrendo", explica o médico Gabriel Musante, chefe da unidade neonatal do hospital. Sofía nasceu com grande vitalidade e, com apenas dez dias de vida, sua melhora é tão favorável quanto poderíamos esperar".
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Martha e a pequena Sofía de los Milagros. A menina nasceu com apenas 850 gramas. Foto: Hospital Universitário Austral. |
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A menina está internada na UTI neonatal, sem previsão de alta.Foto: Hospital Universitário Austral. |
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O chefe da equipe médica, Martha e Sofía.Foto: Hospital Universitário Austral. |
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Esse tipo de transplante foi o primeiro realizado na Argentina, e o décimo quinto no mundo.Foto: Hospital Universitário Austral. |
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