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Em tempos em que o culto às celebridades se tornou um fenômeno social que não pode ser ignorado, o que não faltam hoje são pessoas que se intitulam bipolares sem ter a mínima idéia do que é realmente ser um bipolar. A revolta contra essa "moda" é tão grande que em comunidades do orkut que discutem o transtorno há uma com a foto da cantora na capa. Chovem reclamações: "Olha, não é porque sofremos do mesmo mal que somos obrigados a gostar dela", diz uma menina. Um garoto, também membro da comunidade de bipolares, a defende: "Deixe a (foto) Britney aí, gostem ou não ela é famosa, todo mundo conhece e o transtorno bipolar se tornou popular a partir dos problemas dela".
O que essa reportagem quer mostrar é que não há glamour algum em ser bipolar. Pelo contrário. As histórias são de dor, sofrimento e em muitos casos, de tentativas de suicídio.
Por Rita Lisauskas. Pauta: Dr. Murilo Chermont Azevedo.
"Acho que sou bipolar". Essa frase é ouvida cada vez com mais frequência, principalmente entre os jovens. Basta um momento de tristeza e pimba! Muitos acreditam que a tristeza trazida pelos percalços da vida pode ser sintoma desse que é um dos mais conhecidos transtornos do humor que na sua forma mais grave atinge um por cento da população mundial. As "loucuras" e ataques de fúria da cantora pop Britney Spears, que sofre do transtorno com os paparazzi em seu calcanhar em tempo integral, causam indignação nas pessoas que são bipolares e lutam para se livrar do estigma de "inconseqüentes" e "rebeldes sem causa". "Eu me sinto extremamente ofendido com essa modinha", desabafa o bancário e estudante de psicologia Kleberson Buenos Aires, 27, diagnosticado há um ano e meio com transtorno bipolar. "A doença é grave, não é bacana, as pessoas sofrem, muitos se matam", completa. "As pessoas estão fazendo confusão. Há muita diferença em ter uma tristeza, que faz parte da vida, a ser triste", diz a dona-de-casa Tânia de Oliveira, 34, diagnosticada há sete anos com o transtorno. Segundo a psiquiatra Sheila Caetano, do Hospital das Clínicas de São Paulo, a depressão encontrada nas pessoas que têm transtorno bipolar do humor dura pelo menos duas semanas. Elas sentem vazio, angústia, deixam de comer ou comem demais. Sofrem de insônia, dormem pouco e estão sempre fracas, sem vontade pra nada e sem libido. A auto-estima vai embora. Mas esse período de depressão não é suficiente para diagnosticar o transtorno bipolar do humor, segundo a médica. O outro lado da moeda, a euforia, tem de ser observada nesse paciente, pelo menos por duas vezes. "Por isso o diagnóstico às vezes é complicado", afirma.
A EUFORIA: A FASE DOS EXCESSOS
Nessa fase de euforia, conhecida também como fase de "mania", os bipolares sentem o oposto. Têm muita energia e por isso pouca necessidade de sono. Tudo é excessivo. Alguns compram demais, bebem demais ou fazem sexo demais. Quando contrariados entram em fúria. Pensam e falam rápido, alguns fazem piadas inconvenientes e se sentem muito otimistas e autoconfiantes. A energia é tanta que começam a fazer várias coisas ao mesmo tempo, muitas vezes sem terminar. "Eu quero ler um livro em um dia. Depois não me lembro de nada", conta Tânia. Outros são vistos como líderes, por serem muito proativos. Kleberson, que é estudante de psicologia, era respeitado pelos colegas por seu comportamento arrogante e intempestivo. "Eu interrompia a apresentação dos meus colegas na sala de aula em um tom agressivo, ou entrava na sala do diretor reivindicando coisas de uma forma grosseira", lembra.
Nessa fase de "mania" os bipolares são muito carismáticos. Na página de relacionamentos orkut, há várias comunidades que discutem o assunto. Um jovem recém diagnosticado divide suas experiências com outros bipolares e, em um claro momento de euforia, se autodefine: "Eu me acho iluminado, tenho super poderes... e sou o mais inteligente do mundo". "O perigoso é que nessa fase de mania muitos largam o tratamento", explica a psiquiatra. O tratamento do transtorno bipolar se baseia em medicamentos estabilizadores de humor e em psicoterapia associada. Em alguns pacientes podem ser utilizados também anticonvulsivantes e antipsicóticos.
Tânia decidiu deixar os comprimidos de lado depois de alguns anos de tratamento e em uma fase de euforia. "Pensei: Vou entrar na academia e vou ficar bem", lembra. O transtorno foi voltando aos poucos. "Foi como um copo que vai enchendo e transborda", conta. As fases de mania voltaram. "Não dormia de tão empolgada." Depois foi a depressão que retornou com força total. "Me sentia mais feia e mais gorda do que todas as mulheres. E também uma fracassada por nunca ter terminado a faculdade", lembra. Nessa roda-viva do descontrole da doença, Tânia tentou se matar. Bebeu soda cáustica e ficou três semanas na UTI entre a vida e a morte. As seqüelas físicas foram poucas perto das psicológicas. Por mais que tenha tentado esconder do filho o que aconteceu, não conseguiu. "Ele é muito inteligente, entendeu tudo o eu fiz. Eu nunca mais quero passar por aquilo novamente" , conta emocionada, e já de volta ao tratamento. Segundo a psiquiatra Sheila Caetano, 15% dos bipolares tentam o suicídio quando se encontram no conhecido "estado misto" da doença. São episódios de depressão e euforia que acontecem ao mesmo tempo. "É uma fase de muita angústia e alguns não agüentam".
Kleberson sempre se esforça para se manter no tratamento, mesmo ouvindo cobranças dos colegas de faculdade. "Muitos dizem que eu não sou mais tão engraçado como antes, que virei um chato", conta. Para fugir desses comentários, se afastou dos amigos. "O que os que convivem com os bipolares precisam compreender é que esse comportamento eufórico não é uma característica da pessoa e sim um sintoma de um mau funcionamento de algumas regiões do cérebro", afirma a psiquiatra.
OS MISTÉRIOS DO CÉREBRO
A amígdala, região próxima à têmpora, e o córtex pré-frontal são responsáveis pelas emoções. Nos bipolares, essas regiões funcionam de uma forma desregulada. Pesquisas feitas com crianças bipolares mostraram que elas não conseguiam ver a diferença entre um rosto feliz e um rosto triste. E é por isso que os bipolares não sabem quando uma brincadeira passou do limite ou quando o comportamento excessivo está desagradando alguém. As mesmas áreas do cérebro são responsáveis pelas emoções negativas e pela dificuldade que as pessoas em depressão têm em pensar coisas positivas. "Remédios como o lítio aumentam o volume do cérebro e regulam a função dessas áreas, impedindo a morte dos neurônios", explica a psiquiatra. Mas as pesquisas continuam, já que as causas do transtorno ainda não são completamente conhecidas pelos médicos. E por enquanto, não pode se falar em cura para o transtorno bipolar.
Ao contrário da depressão que atinge mais mulheres do que homens, o transtorno bipolar atinge os dois sexos na mesma proporção. Sabe-se que o fator genético é importante: Pais e mães bipolares têm 10% por cento mais chances de ter um filho com o transtorno do que quem não tem um caso na família. Embora a genética tenha de ser considerada, geralmente o transtorno mostra suas garras depois de um acontecimento externo, como stress, uso de drogas, de anfetaminas, antidepressivos ou de eventos traumáticos. Kleberson teve um primeiro surto grave depois do rompimento de um relacionamento amoroso. Mas lembra que os sintomas da forma mais grave do transtorno começaram na adolescência. "Eu tinha alucinações, delírios, fobia social, e ataques de pânico", lembra. Para Tânia, a doença apareceu depois de uma depressão pós-parto. Mas ela lembra que se sentia mal desde criança. "Era autodestrutiva. Tentei o suicídio duas vezes quando adolescente porque me sentia muito infeliz", conta.
O tratamento do transtorno é imprescindível. "Cada episódio de euforia ou de depressão tem um efeito tóxico para o cérebro", afirma a psiquiatra. Além dos efeitos negativos para a saúde, muitos bipolares colocam em risco a própria vida e a de outras pessoas se não tratados. Seis em cada dez têm sintomas psicóticos, de "quebra com a realidade". Ouvem vozes, vêem coisas e pessoas. Kleberson era evangélico fervoroso e em momentos de crise se sentia perseguido por demônios, ouvia vozes e tinha alterações no paladar. "Sentia gosto de barata na boca", lembra. Com o tratamento e com a psicoterapia , esses sintomas diminuíram.
FAMÍLIA, AMIGOS E TRATAMENTO
Além do tratamento do paciente, a psiquiatra destaca que é importante fazer com que familiares e amigos das pessoas que têm o transtorno bipolar aprendam sobre a doença. Ela destaca o trabalho feito pela Associação Brasileira de familiares, amigos e portadores de transtornos afetivos, Abrata, que realiza palestras periódicas e gratuitas para todos que querem saber mais sobre o transtorno, além de oferecer grupos de auto-ajuda semanais. "O principal inimigo do bipolar é o preconceito", afirma a psiquiatra. "Muitos têm vergonha de contar para os amigos que são portadores do transtorno, porque o estigma social é grande", afirma. Kleberson concorda. Ele diz que é tratado de forma diferente no trabalho desde que descobriram que é bipolar. Segundo ele, porque o atestado médico que apresentou depois de uma crise trazia em letras "garrafais" o motivo de seu afastamento do trabalho. "Eu tenho certeza que várias coisas (promoções) eu não obtive por ser bipolar", afirma. Já para os amigos e para o marido da dona-de-casa Tânia a palavra preconceito não existe. E ela afirma que o apoio deles foi fundamental para sua recuperação. "Hoje posso dizer que estou bem", afirma.
Assista no "Passou na tv" um trecho do filme Mr. Jones, que conta a história de um bipolar.
Confira também na seção "Procuram-se doentes" que o Instituto de Psiquiatria do HC de São Paulo está triando pacientes para o tratamento gratuito, pelo SUS, do transtorno bipolar.
Profissional consultado:
Dra. Sheila Caetano
Psiquiatra e pesquisadora em transtorno bipolar do Projeto Mania do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Telefones: 011 3120-6080 ou 011 30697928
Secretária da ABRATA- Associação Brasileira de familiares, amigos e portadores de transtornos afetivos.
Endereços úteis:
ABRATA- Associação Brasileira de familiares, amigos e portadores de transtornos afetivos.
www.abrata.org.br
Telefones: 011 3256-4831 de segunda à sexta, das 13:30 às 17:00 hs
Email: contato@abrata.org.br
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As crises de Britney Sofrendo do transtorno bipolar tendo o mundo como testemunha. |
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Kleberson Ele se sente melhor com o tratamento, mas os amigos cobram: "Muitos dizem que eu não sou tão engraçado como antes, que virei um chato". |
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